Grife de Londres produz bolsas com anéis de latinhas coletados em Salvador

Bottletop produz bolsas e acessórios a partir de anéis de latas de cervejas e refrigerantes comprados de uma cooperativa.

Em meio ao burburinho de consumidores que buscavam os prometidos descontos da Black Friday, na Regent’s Street um dos principais endereços de comércio de alto padrão de Londres, algumas lojas silenciaram. Não havia cartazes nem desconto, nem as palavras de ordem para que os consumidores comprassem. Foi uma decisão consciente que segue a tendência em uma geração cada vez mais crítica em relação aos efeitos que a produção e o consumo de massa têm sobre a saúde do planeta. A butique Bottletop foi uma delas.

Gerente da grife há dois anos, o brasileiro João Zabaleta afirma que a preocupação da empresa britânica vem desde a fundação da marca. A Bottletop produz bolsas e acessórios a partir de anéis de latas de cervejas e refrigerantes coletados nas ruas de Salvador, no Brasil, comprados de uma cooperativa. O design das peças é feito no escritório de Londres, mas a produção é feita no ateliê na marca na Bahia, onde trabalham 28 brasileiras, que foram tiradas da informalidade e contratadas pela marca.

“São elas que fazem tudo à mão, tratam os anéis, pintam e fazem o crochê para fazer as bolsas. Eram coisas que elas já faziam informalmente e foram todas contratadas para trabalhar no ateliê, quando foi fundado há 13 anos. Tudo trabalho manual. Essa coisa do ‘slow made’, feito devagar. Não é produção de grande escala”, explica Zabaleta.

“Existe essa responsabilidade da produção, porque a gente sabe exatamente quanto tempo leva para cada peça ser feita. A gente só tem uma loja no mundo inteiro. Existe uma produção, muito muito pequena”, acrescenta.

Isso explica a relação da Bottletop com os excessos da Black Friday. “A gente escolheu não fazer parte justamente por isso”, destaca.

“Together Band”

Nesse mesmo dia, quando integrantes do grupo “Extinction Rebellion” carregavam esqueletos pela rua para pedir um consumo responsável por parte da população, a butique lançava mais uma pulseira da coleção “Together Band”, em parceira com as Nações Unidas. Cada uma tem uma cor e representa um dos 12 objetivos do desenvolvimento sustentável. Elas são feitas a partir de plástico coletado no fundo do mar na Costa Rica e carregam um detalhe em metal que é resultado de armas recolhidas em El Salvador. A produção vem do Nepal, de um trabalho social de mulheres que foram resgatadas de redes de exploração sexual.

As pulseiras são vendidas aos pares para que sejam objetivos compartilhados entre as pessoas. Toda a renda obtida com a venda é destinada a projetos sociais ligados aos objetivos de sustentabilidade mapeados pela ONU. Esse é um projeto paralelo da butique, que se aproximou do grupo “Extinction Rebellion”, desde o lançamento da marca no badalado festival alternativo de Glastonburry, em 2007.

“Desde então, a marca agregou muita gente que hoje faz parte desse movimento, dos protestos que estão acontecendo hoje”, afirma.

Produção consciente

Foi uma decisão consciente, assim como a de Zabaleta, que sempre quis trabalhar com design e moda. Nos últimos anos, ele percebeu que a indústria da moda produz demais e polui demais. Aos 34 anos, ele já mora há dez na capital britânica, onde também fabrica roupas sob medida para antigos clientes e trabalha para pequenas marcas independentes.

“Eu escolhi Londres para ser o local onde eu ia estudar e desenvolver a minha pesquisa para a moda, porque eu acho que as pessoas aqui são mais conscientes para essa questão do consumo, são mais abertas, conscientes, críticas sobre o que consomem”, diz.

Para ele, as pessoas no Reino Unido compram e investem em peças de design que são novas, que estão emergindo agora. “Elas sabem que isso tem um preço e estão dispostas a pagar por isso”, completa.

Fonte: https://g1.globo.com/

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